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on repeat


São 14h41 e a minha filha, de 14 meses, dorme a sesta. 

De manhã já me arranjei, recuso-me a andar de pijama o dia todo. Quero normalidade. 

Já fiz o pequeno-almoço, panquecas de aveia, que comemos em família. Gosto desta “anormalidade” que se tornou um hábito diário. 

Já arrumei a loiça limpa que pousava no escorredor. Já coloquei na máquina a loiça suja do pequeno-almoço. Lavei outra tanta que não gosto de colocar na máquina. Manias... Já limpei a cozinha. Já lavei e estendi roupa. Dobrei outra tanta. Já apanhei mil coisas do chão. Já corri, saltei, dancei, cantei. Já ri. Já fiz scroll pelas redes sociais. Já vi televisão. Já ouvi podcasts.

Já dei o almoço à minha filha, enquanto ouvia as mesmas canções infantis que já sei de cor e se apoderaram da minha mente. Mudei-lhe a fralda e embalei-a para o sono da tarde. 

Já testei uma nova receita de pães de queijo e alho. Já fiz salada, aqueci o almoço. Sentei-me à mesa e almocei na companhia do marido e de um copo de vinho branco. Já ignorei a fruta no final da refeição e passei directamente para o expresso de máquina acompanhado por uma barrinha Kinder, na esperança de adoçar um pouco mais estes dias que nos parecem já todos iguais.

São 14h41 e sentei-me na minha secretária. Time to work. 

São 14h41, mas podiam ser 16h, 21h34 ou 23h52. O loop seria o mesmo independentemente da hora em que vos escrevesse. 

Consigo descrever-vos, exactamente, como será o resto do nosso dia: a nossa filha vai acordar, entre a muda da fralda e brincadeiras, chegamos ao lanche, que tomamos, mais uma vez, felizmente, todos juntos. Regresso ao trabalho enquanto pai e filha brincam na sala até chegar a hora dos banhos. Até lá, fechada no meu escritório, de janela aberta para olhar a natureza, trabalho, passeio o nosso cão, tiro uns minutos para o Yoga e fecho os olhos na esperança que a meditação me acalme e ajude a recuperar energias para o resto destas 24h. Ainda estamos no mesmo dia, certo?

Após os banhos, jantamos. Brincamos e embalamos. Depois é hora de ser casal. Séries, livros, jogos, música, vídeo chamadas, lives no Instagram. Deitamo-nos muito mais tarde do que era habitual na nossa antiga rotina diária. Deitamo-nos muito mais cansados do que era habitual. Deitamo-nos muito mais conscientes de que esta nossa nova rotina, esta sensação de “vira o disco e toca o mesmo” independentemente de ser segunda, terça, sexta-feira ou domingo, nos traz lições todos os dias. E, na esperança que esta bolha de Amor afaste o que é menos bom fechamos os olhos e adormecemos. Gratos porque, apesar do cansaço, estamos juntos, temos saúde e, se um dia uma pandemia nos obrigasse a ficar 24 sob 24h fechados em casa, queríamos que fosse tal e qual como está a ser. 

São 14h41 e eu já fui mulher, mãe, dona de casa, educadora de infância, amiga, filha. Fui e sou tantas coisas. Agora. E sempre.


Elisabete Amaro

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